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sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Indígena deixa canavial e se torna primeiro professor indígena do curso de Direito da UFPA

Almires Martins Machado é bacharel de direito pela UniGran, de Mato Grosso do Sul, tem mestrado em Direitos Humanos e doutorado em Antropologia pela Universidade Federal do Pará.

Almires Martins Machado, 54 anos. Foto: Reprodução
Almires Martins Machado, de 54 anos, da etnia Guarani-Terena, se tornou o primeiro indígena a tomar posse para o cargo de professor por concurso público realizado para indígenas na Universidade Federal do Pará (UFPA). Ele vai atuar no Instituto de Ciências Jurídicas (ICJ), no Programa de Pós-Graduação em Direito (PPGD) e na Clínica de Direitos Humanos da Amazônia (CIDHA).

A cerimônia de posse aconteceu nesta quinta-feira (7), no gabinete do reitor da UFPA Emmanuel Tourinho, em Belém. Também participaram do momento simbólico a antropóloga e professora da UFPA Jane Beltrão, a doutoranda indígena Putira Sacuena, os professores do ICJ Cristina Terezo, Paulo Weyl e Breno Baia Magalhães, a professora da Escola de Aplicação da UFPA Antônia Brioso e o pró-reitor de Desenvolvimento e Gestão de Pessoas, Ícaro Pastana.

Indígena Almires Martins Machado, de 54 anos, toma posse como professor visitante do curso de Direito da Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém — Foto: Alexandre de Moraes/Ascom UFPA
De acordo com Almires Machado, a assinatura da posse foi um momento histórico para Universidade e dele, que representa uma conquista para toda a comunidade indígena.

"A minha entrada na UFPA é mais um passo importante de representatividade da nossa comunidade (indígena), assim como a quilombola. O sentimento é de satisfação. Satisfação de mostrar a todos que, não a meritocracia, mas a ideia de que nós chegamos e chegamos para ficar", disse o Guarani-Terena.

Da aldeia para o canavial

A história de Almires Martins Machado começou em 1967, na aldeia Jaquapirú, que fica em Dourados, em Mato Grosso do Sul. Desde pequeno se destacava entre as crianças foi criando para ser uma liderança para o grupo.

"Na aldeia fui criando com a mentalidade de que assumiria a liderança. Me destacava na escola e isso era muito bom para a nossa comunidade", contou Almires.

Em 1985, o indígena concluiu o ensino médio. O país estava em crise financeira. A fome e morte de crianças por desnutrição na aldeia forçou os mais jovens e instruídos procurarem emprego.

Como o preconceito forte sobre a etnia, a saída foi ir trabalhar no canavial das usinas de cana e álcool da região. Segundo Almires, mais de 10 mil indígenas na época se submeteram ao trabalho análogo à escravidão.

"Ficávamos em lonas e não tínhamos água potável, era de bica e minas. Não tínhamos os direitos trabalhistas, como férias, 13º, salário fixo e outros", contou.

"Então decidi procurar o Ministério Público Federal (MPF) para relatar o que estávamos passando. Naquela época não tínhamos direito trabalhista. Depois de muitas conversas começamos a ter as primeiras carteiras assinadas. Racismo institucional, racismo estrutural e preconceito não eram visível, eram gritante. Isso me fez querer lutar ainda mais", completou.

Foto: Reprodução
Do canavial para a Universidade

Após 12 anos trabalhando em usinas de cana e álcool em Mato Grosso do Sul, Almires Machado recebeu um convite de um coordenador da Fundação Nacional do Índio (Funai) para produzir um projeto que seria apresentado nas universidades locais para tentar garantir vaga reserva para indígenas.

"Fomos para Federal, bateram a porta na nossa cara, fomos na Estadual, bateram a porta na nossa cara. A única que aceitou foi a Universidade de Dourado. Então ela abriu 100 vagas para indígenas, em todos os cursos que ela tinha. Ela não cobraria a mensalidade. Na verdade, 50% pagos pela universidade e 50% pagos pela Funai. Entrei na universidade de Direito em 1998", explicou Almires.

Mesmo dentro da universidade, precisou superar o preconceito diariamente para ser ouvido e validado dentro das questões que reivindicou durante todo o processo por mais espaço para indígenas e quilombolas.

"Minha missão era desconstruir a imagem do indígena é incapaz e burro, como fui acostumado a ouvir, infelizmente", lamentou.

Almires concluiu o curso em 2004. Depois seguiu trabalhando dentro da própria universidade de Dourado. Em 2005 foi convidado a ser assessor da Funai durante as conferências estaduais. Em uma das viagens pelo órgão, o indígena Guarani-Terena conheceu a professora da UFPA Jane Beltrão.

"Ela me fez um convite para escrever um projeto para a inserção de indígenas no curso de pós-graduação da UFPA, e conseguimos que ele fosse aprovado. Em 2007 iniciei o mestrado junto com a Rosane Kikaimgamg, que hoje ela está fazendo pós-doutorado em Direto na UFPA. Fomos os precursores para toda a abertura para indígenas e quilombolas na pós-graduação da UFPA", contou.

Do mestrado em Direitos Humanos para o doutorado em Antropologia. A caminhada de Almires Machados até uma cadeira da docência da UFPA teve o marco nessa quinta-feira, 7 de outubro de 2021, assinando a posse do cargo por meio de concurso público.

"Assinar o contrato com a UFPA veio coroar todo esse caminho", concluiu.


G1 Pará

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